E lá estava eu, com os olhos mórbidos tentando focar o olhar
Em algo que mantivesse minha mente distraída
Pessoas, passos, barulhos irritantes, gestos, calor...
Olho pros lados, o desconforto e as sacudidas do veículo só me deixa mais inquieto
E tudo que eu tento fazer é manter meus cabelos em ordem...
Meio sufocado e meio desengonçado, meus óculos escuros são meu escudo
Para disfarçar minha expressão de insatisfação e frustração
Mas ao olhar de relance pros lados, em um deles vi aquela figura
Sentada, muda, mexendo nos cabelos, enquanto sussurrava bem baixinho
Uma canção que ouvia com seus fones coloridos, esperados em seu celular
No momento, pensei que ela ali, nem notou minha presença
Mas quando olhei de novo, lá estava ela, cedendo seu lugar, e sentando no acento das janelas
E sem dizer uma palavra, quimicamente me convidando pra sentar me ao seu lado
Sentei, com vergonha e um pouco de medo, nem sabia me mexer
Pois seus olhos claros e os cabelos loiros me ofuscavam
Olhava pra janela, sussurrando as canções que ouvia, e quando dava, em frações de segundos
Desviava os olhos pra mim, meus cabelos longos e meus óculos escuros ofuscavam ela também
Nenhuma palavra foi dita, mas ela sentiu o que eu senti também
Nenhuma expressão forte foi feita, mas ao fundo do acontecido, se percebe o sentimento
Talvez ela só esperava uma palavra minha, um gesto á mais do que um simples cruzar de braços
Mas eu estava preocupado e com medo demais pra dizer um simples oi pra aquela bela garota
Uma aparição, talvez a única boa chance que tive de conhecer a felicidade
Mas eu a deixei ir, eu desperdicei, por ser tolo e inseguro demais.
E prestes a ir embora, ela se levantou, e mesmo não sabendo onde estava meus olhos
Pois eu os cobria com com óculos, ela sorriu, um lindo sorriso
Se levantou, e saltou para a calçada, para a rua, e para seu destino
Talvez eu nunca mais a veja, talvez eu devia ter sido mais corajoso e audacioso
Quem sabe um dia....
Quem sabe numa outra vez....
Mas até lá, vou ficar a pensar, no anjo que sorriu pra mim, e eu o deixei ir...
Mário Kazama